quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O fim de um Governo

No Público, enquanto ainda existe.

O fim de um Governo pode muito bem dar-se quando o Povo quer. Ou quando as zangas domésticas não escapam ao sorriso escarninho da vizinhança.

O fim de um Governo pode dar-se também quando primeiros-ministros se veem deserdados pelos seus pais criadores. Ou quando atalham por desvios que, de tão enormes, os levam, perdidos.

Governos enterrados por Presidentes [que acharam que assim, enterrados, era melhor, ponto], ou Governos suicidas; está quase tudo visto.

Mas o caso do Governo de Pedro e de Miguel é especial.

Há um amor fraternal que os une [infinito, como todos os amores devem ser]. Que outra força do mundo, senão o amor entre dois irmãos, poderia mantê-los de unhas tão fincadas um no outro, espiralando até ao fundo?

Unidos para sempre, Pedro e Miguel têm uma paixão heroica: caindo um, cai o outro, e vice-versa.

O Miguel sempre fez tudo pelo Pedro. E o Pedro sempre tudo fez pelo Miguel.

O Velho do Restelo, no leito da morte, lá vai gritando: «Relvas ajudou empresa ligada a Passos». E então? Quem censura a fidelidade?

Bruxelas? Bruxelas em risco de apregoar pelo mundo inteiro que os seus fundos estruturais foram desbaratados em negócios entre o atual primeiro-ministro e o então secretário de Estado, e atual ministro?

Que se lixe Bruxelas! Entre irmão e irmão ninguém mete a mão. Só eles.


sábado, 31 de março de 2012

Da procriação e de outras bolas argumentativas

Um casal heterossexual, sem filhos, é uma família. [Não precisa de «procriar».] Dois irmãos adotivos são uma família. [Mesmo não tendo os seus progenitores «procriado».] Um pai adotivo e o seu filho, são uma família. [Sem que o pai tenha penetrado qualquer mãe.] A «união sexual procriativa» não é um requisito para se formar uma família. [Nunca foi.] A «educação íntegra e equilibrada» das crianças pode fazer-se sem contacto entre adotantes. [Hoje, ontem, como sempre.] Os «estudos científicos» estão, por definição, todos errados e todos certos. [Porque todos são revisíveis.] A «biologia» e a «natureza» não têm lugar na adoção. [Porque se tivessem, seriam, antes, filiação natural]. A «condição humana» é... a «condição humana». [E não a condição dos bichos.] A discussão sobre a adoção por casais de homossexuais não pode partir do «superior interesse da criança». [É um erro metodológico. Porque apela ao interesse dos menores sem antes se pronunciar sobre a eventual discriminação entre "todo o heterossexual é potencialmente apto" e "todo o homossexual é absolutamente inapto".] Ad absurdum: deve um juiz  permitir que um marido e uma mulher toxicodependentes adotem uma criança? [À partida, não. É uma exceção imposta pelo caso concreto. É o juiz que verá, é o juiz. Passe à casa seguinte.-->] Ad absurdum II [mais impercetível, exige pensamento atento]: deve o legislador proibir a adoção a todos os casais homossexuais [mesmo os estáveis, educados, com bens próprios e afetuosos]? [Não. Porque não deve excecionar uma categoria de cidadãos em função da sua orientação sexual, vedando ao juiz a análise do caso concreto da criança concreta dos candidatos concretos concretamente considerados.] A não ser que o legislador, na verdade, não esteja preocupado com quaisquer interesses de quaisquer crianças. [O que é o caso. Mas não deveria ser.]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Da lealdade de Cavaco: a síntese

Cavaco Silva, «graças ao distanciamento temporal que já existe» (um ano é muito tempo na política) decidiu, por fim (e finalmente, já), partilhar com o Povo, num novo livro, a sua magoada alma presidencial. Ressentido, sublinha (e repete, e reitera) a sua clarividência (ou previdência, ou Providência, é à escolha), dando tinta a um escrito que, se não fosse tão inoportuno, poderia ser vagamente enternecedor.

[Tentando obstar a dispêndios inúteis, deixamos infra uma síntese fiel.]

«A magistratura ativa

Em 9 de março de 2011, iniciei o meu segundo mandato (…).

(…) disputa eleitoral em que pessoalmente (…), obtive mais de 50% dos votos. (…) A vitória nas eleições de 2011 teve um sabor especial (…).

(…) fazia-me esperar a vitória, (…) percorri oitenta e um concelhos, (…) o meu discurso (…).


Eu próprio (…), fizera um levantamento dos muitos avisos que havia lançado (…), além das múltiplas chamadas de atenção que, em privado, transmitira ao Primeiro-Ministro (…).

Iniciei a campanha (…) pois sempre foi meu propósito (…) a oportunidade (…).

(…)fizera avisos (…) afirmei (…) usei (…); mas, em janeiro de 2010, f[ui] ignorad[o] (…).

(…) escrevi (…) disse claramente (…).

Nunca escondi (…). Mas, surpreendentemente, (…) me criticaram (…) fui alvo, interroguei-me (…)?

(…) me abstenho de comentar.

(…) falei verdade (…) penso (…), não me congratulo pelo facto de a História me ter dado razão. Lamento (…).

Não me deixei enredar (…) assumi (…). Os que me acusam (…) devem (…) fazer uma avaliação (…).

(…) os meus alertas (…), me levaram a propor (…) uma magistratura presidencial ativa. Fi-lo (…). como eu próprio escrevi (…). deixei (…).

(…) Levei muito a sério (…).

Fiquei (…) na minha experiência e nos meus conhecimentos, (…) em meu entender (…).

(…) Se me candidatava (…), não poderia agir (…). (…) alguns não hesitaram sequer em pôr em causa  (…) a minha honorabilidade pessoal.

(…) Eu tinha afirmado várias vezes (…).

(…) iniciei os contactos com os líderes (…) procurei sensibilizá-los (…).

(…)

Pela minha parte (…) contaria com todo o meu apoio (…).

(…).

A crise política de 2011
Dois dias depois da minha tomada de posse, (…) já se vinham avolumando (…).

A 11 de março de 2011, o Governo divulgou (…) “PEC IV” (…).

Percebi claramente (…) o risco (…).

(…)
Ao longo do tempo, fui detetando (…).

(…)  apanhou-me de surpresa. (…) Primeiro-Ministro não me deu conhecimento prévio (…) uma falta de lealdade institucional que ficará registada na história da nossa democracia. (…).

(…) o Primeiro (…) começou a informar-me(…). (…) me acusaram de não ter atuado (…).

(…) Orçamento para 2011 (…), pude atuar (…) convoquei o Conselho de Estado (…) realcei (…) os conselheiros.

(…) o Primeiro-Ministro apresentou-me a sua demissão (…).

Sem perder tempo, convoquei (…), recebi (…).

Depois de ouvir (…), reforcei a minha convicção (…).

(…) Decidi, assim (…).

(…) nada me surpreendeu. (…), quando os ouvi (…).

(…) detetei (…) fortes marcas de ressentimento (…).

(…) assumi (…).

(…) Não tenho dúvidas (…).

Considerei (…) reuni (…). Mas nem por isso deixei de ter presentes (…). Na ocasião, disse (…) E acrescentei, (…). (…), tive ocasião (…).

(…), dirigi-lhes um forte apelo (…).

(…) proferi (…).

(…) constatei (…).

(…) Já várias vezes vi (…) o meu antecessor, o Dr. Jorge Sampaio(…).

(…) sou um defensor da estabilidade (…), considero (…).

Desde que assumi funções (…).

(…) profunda reflexão que fiz, (…) nos últimos seis meses do meu mandato, concluí (…).

(…) só dissolvi a Assembleia (…) obtive a certeza (…) me guiava exclusivamente por (…) partidarização (…).

(…) tenho procurado manter-me informado (…) através das minhas deslocações (…). De todos recebo um conjunto muito rico e diversificado (…).

Estabeleci, no entanto, uma regra (…). Dou prevalência à informação do Governo (…).

Tendo de acompanhar (…).

Uma estatística esclarecedora

(…) recebi do Governo (…).

(…) nas minhas reuniões com o Primeiro (…).

Entendo (…), tem sido minha posição não recusar (…) objeções (…). Como afirmei (…).

(…) meu primeiro (…), sempre segui (…). (…) não requeri (…).

(…) o meu primeiro (…).

Com os Portugueses

(…) serei fiel (…).

(…) Sou Presidente (…). Tenho consciência (…). Conheço o País, conheço Portugal (…). Sei (…), mas tenho também (…) enormes potencialidades (…), não me resigno nem me conformo. (…) irei ser o Presidente (…) podem contar comigo.

Aníbal Cavaco Silva

Março 2012»

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O povo e a polícia de Atenas


Aconteceu ontem em Atenas, enquanto o Parlamento grego aprovava mais um pacote de austeridade. 
 
Imaginem-no em Lisboa, em Coimbra, ou na vossa rua.