terça-feira, 9 de agosto de 2011

O multiculturalismo não é o papão (por Miguel Pereira)

Por Miguel Pereira [a quem agradeço ter autorizado a colagem]:

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Portugal é um país historicamente conservador. No entanto, desde o 25 de Abril, a esquerda, com laivos mais ou menos radicais, sempre dominou na retórica social e política; as suas ideias sempre foram consideradas “mais correctas”, “mais nobres”... em suma: na minha análise sempre houve uma superioridade moral da esquerda, concedida até muitas vezes pelos próprios adversários políticos.

Este efeito levou a que muita direita, mais ou menos radical, estivesse, por assim dizer, no armário. Neste momento parece-me desnecessário que lá estejam, é positivo que haja multiplicidade de discursos, de ideias, mesmo das mais radicais. Também é preciso coragem para as submeter à opinião e ao contraditório. Isso é a minha concepção de democracia.

Por ocasião destes motins em Londres, que confesso me chocam bastante, muita opinião produzida cai na velha dicotomia das duas facções: os amotinados são uns coitadinhos, vítimas do sistema versus os amotinados são criados pelo estado assistencialista e pelo multiculturalismo.

Qualquer uma destas análises simplistas é extremamente reconfortante, e extremamente errada. A primeira facção tenta justificar os motins com o neoliberalismo e o capitalismo, e rejeita ou secundariza que se precise de repressão; a segunda facção quer repressão e diz que nenhum trabalho social preventivo há a fazer, porque “eles” são mesmo assim, são como animais que só estão felizes a roubar e a aterrorizar os cidadãos. “Eles” são normalmente apontados como imigrantes, o que até nem é exacto, neste caso.

Há muita gente a defender um discurso de ódio sem se dar conta, pensa apenas que está a ser “desalinhado” com a generalidade da opinião pública e a vingar-se da tal superioridade moral da esquerda. Pensa que tem mais razão por ir contra a corrente. É o discurso do taxista, mais ou menos refinado.

Ao ler algumas reacções a esta tragédia chego à conclusão que muita gente aceita uma das teses defendidas pelo executante do massacre na Noruega, Anders Breivik: o multiculturalismo é o papão e raiz de todos os males. Só que, simplesmente, na altura não teve coragem de o assumir.

A minha análise parte das ideias rejeitadas pelas duas facções radicais: tem de haver uma acção dura da polícia, tentando não recorrer a tácticas terceiro-mundistas que transformem Londres em El Salvador. Tem de haver muito mais presença da autoridade, e muito mais dissuasora. Por outro lado, é óbvio que terá que ser reforçada a vigilância e o acompanhamento social a situações que, todos nós sabemos, resultam nesta marginalidade.

Os cortes cegos de Cameron, tanto na polícia como no acompanhamento social nos bairros problemáticos, podem ter que ser revistos. Até pode ser a tal “Big Society”, mas é preciso que não seja só um conceito. É preciso que exista. Não nos podemos é dar ao luxo de fechar os olhos às várias perspectivas de análise deste tipo de criminalidade oportunista, sob pena determos de aceitar viver neste tipo de insegurança.

E depois o que fazemos? Distribuímos armas à população? Voltamos ao faroeste.

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Sem polícias, nem chamas, nem vidros partidos, nem vassouras, nem discursos, porque isto é o que melhor ilustra os motins de Londres:

domingo, 7 de agosto de 2011

As férias de Bruxelas

Desde o dia 1 de Agosto, lê-se no portal da União Europeia * :
The summer recess slows down the regular rhythm of activities of EU institutions and the production of news material. Until the end of August, the Highlights section of this site will therefore not be updated daily, but whenever there is relevant news to report. 
Ontem, a Standard and Poor's desclassificou historicamente os EUA. De imediato,  «Sarkozy e Cameron falaram sobre a crise mundial» * e convocaram o G7. O PM britânico, que nunca perdeu o sono com as dores do euro, parece agora empenhado na resolução rápida das aflições do dólar.

À primeira vista, estranhar-se-ia que uma organização para-federal como a UE fosse ultrapassada a trote por uma reunião informal de sete países industrializados. (Sete, e não oito, porque a Rússia, para o que aqui interessa, é rija e soberana.)

Mas Sarkozy compreendeu que, não se entendendo com Merkel, precisa de outros aliados para isolar o seu país do vírus das dívidas soberanas. Aproveitou a humilhação norte-americana e acenou a Cameron com o perigo iminente vindo dos EUA. Foi o bastante para que Cameron se levantasse da poltrona.

Se, antes, Merkel podia dar ralhetes a Lisboa, Dublin e Atenas, terá agora mais dificuldades em fazê-lo contra Washington. Se, antes, tinha livre margem para impor as condições dos resgates e cumprimentos, tem agora pela frente um adormecido britânico com as suas próprias libras para proteger.

Os líderes europeus apenas internamente se mantêm irredutíveis no jogo doméstico de culpas. A melopeia alemã é bem exemplo disso e Portugal é a prova viva. Com esse jogo, conquista-se o poder. Externamente, há muito que sabiam que a loucura dos mercados é global e que só em bloco se poderá sedá-los.

Com tantas moedas, economias e interesses em jogo, incapaz de encontrar uma solução, a UE tem mesmo razões para estar de férias. O maestro alemão já esteve mais longe de ir para a reforma e de compreender que, apenas com fundos, talvez não tenha a velhice com que sempre sonhou.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A cacofonia de Barroso e o maestro alemão



Barroso escreveu ontem uma carta aos líderes da zona euro lembrando o que todos já sabiam. Que as decisões tomadas no Conselho Europeu de 21 de julho * são insuficientes para evitar a propagação do mal. Somadas à comunicação «indisciplinada» dos líderes europeus, tais medidas justificam o ceticismo crescente dos investidores quanto à capacidade «sistémica» da zona euro para se curar * .

A Alemanha não gostou do lembrete e, hoje, mandou Barroso calar-se * . O Bundesministerium der Finanzen de Wolfgang Schäuble tem os seus próprios planos para salvar a Grécia e a Europa * . Indo diretos ao ponto * : a Alemanha entende que, como paga, também deve decidir. Sem aceitar conselhos de Barroso, a quem nunca reconheceu autoridade.

Esta dança era previsível e vai ter, muito provavelmente, encore.  Este federalismo súbito de Barroso não estava previsto. O seu contrato de trabalho incluía tarefas simples. Nem sequer foi a primeira escolha * e a sua ascensão deveu-se apenas a uma especial preocupação com o eixo atlântico, num momento que o tempo já cristalizou.

Quando chamou a si, tarde, a defesa do euro e da União (de resto, como sempre lhe competiu, de acordo com as letras graúdas dos Tratados), o presidente da Comissão foi acusado pela Alemanha de contribuir para a cacofonia.

É verdade que Barroso pode não ser competente para conduzir esta complexa sinfonia. Talvez por isso seja de sugerir que a Irlanda, a Grécia, Portugal, a Espanha e a Itália se reúnam para aprovar um plano especial de mendicidade.  Sugiro, como ponto de encontro, o Banco de Portugal. E que se convide a Polónia. O que seria um grande hino à alegria germânica...

(Ligações com interesse:
  • Sítio na Internet do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira *. Em inglês, para português ler.
  • Prova de vida da Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros [e a Política de Segurança] * . Catherine Ashton aguarda que a Europa possa falar a uma só voz.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Breves desconexas

«Obama promulgou aumento do limite de endividamento» *

Depois do sofrível enrolar do mar na areia, que enrola no mar * , os democratas e os republicanos concordaram aumentar a dívida e diminuir a despesa * . O presidente, de esquerda *, viu-se forçado a engolir o chá * e não reforçará os impostos sobre quem os pode pagar. Desconhece-se se tal panaceia resolverá os problemas dos EUA. Ou os do mundo. Criará certamente novos desafios para Obama.

«Barroso preocupado com a “gravidade” da situação da Itália e da Espanha» *

O presidente da Comissão pretende a adoção rápida das decisões do Conselho Europeu * . Barroso sabe, melhor do que ninguém, que tal é impossível. As decisões às quais se refere, a retirar-se delas algum conteúdo, implicam a aprovação de atos legislativos e regulamentares que poderão levar meses ou anos a conceber e outros tantos a apurar. Mas tem razão quando lembra que falta tempo à União. Teria sido fantástico se se tivesse lembrado disso antes...

«Julgamento de Hosni Mubarak» *

Se praticou ou não os crimes de que vai acusado, é questão que caberá ao tribunal decidir. O seu próprio povo e os média internacionais, contudo, já proferiram a sentença. Quem defende a presunção da inocência não fica indiferente ao ver um acusado enjaulado, deitado numa maca, e exibido como numa feira de horrores. Por outro lado, quem defende os direitos humanos tem a legítima expetativa de acompanhar o julgamento ao segundo. Não vá dar-se o caso de tais horrores terem mesmo sido praticados.

«PSD faz chamada falsa para o 112 para testar velocidade» *

Uma auditoria amadora, sem qualquer enquadramento científico. Tudo para replicar os argumentos do presidente do Instituto Nacional de Emergência Médica, enquanto este era ouvido numa comissão parlamentar. Foi-se muito longe na vivacidade da argumentação.

A sociedade tem bem interiorizado que a utilização abusiva de um sinal ou de uma chamada de alarme ou de socorro configura a prática de um crime. De resto, o artigo 306º do Código Penal * assim o dispõe. É certo que, aos deputados, são garantidas algumas imunidades constitucionais, sem as quais a democracia e o poder de fiscalização da Assembleia da República seriam meras formalidades (vd. artigo 107º da CRP* ). Mas ainda assim... Em síntese: não tente fazer isto em casa.

«Os políticos de direita têm mais capacidade de transmitir a sexualidade» *

Rodrigo Moita de Deus, um dos 31s, mimou-nos com uma caracterização fiel dos atuais políticos de direita. Servem para exibir os botões de punho. Também coseu alguns argumentos em defesa da monarquia. (E que argumentos...) Não se percebeu se o fez por convicção ou apenas para promover a sua imagem. Em qualquer dos casos, não conseguiu convencer este republicano de esquerda, que prometeu há muito exilar-se se Portugal algum dia se tornasse numa Monarquia. Não é que alguém lhe desse pela falta.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A chef de Álvaro e as estrelas da Michelin

O ministro Álvaro [Santos Pereira] conseguiu recrutar a sua chefe de gabinete por apenas € 5.821,30 mensais *. O vencimento da Marta [Maria Dias Quintas Neves] fica, assim, € 700 abaixo da prevista para o Presidente da República. Tudo se explica porque ela é uma «super chefe» (palavra de ministro). A Marta não se importaria de manter os 50 mil que arrecadava nas suas funções "privadas" na PT. Mas o Álvaro temeu o reboliço da opinião pública. A contratação de tão brilhante maîtrise d’hôtel foi, portanto, bem negociada e a bom preço, não se desse o caso desta preferir trabalhar para outra gerência. O chefe de gabinete da Assunção [Cristas], esse, receberá uns parcos € 3.892,53 * . O que se explica facilmente: o Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, como é sabido, tem muito menos estrelas e nenhuma delas da Michelin.

Ad clerum

O cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, foi chamado a Roma por ter tido a ousadia de afirmar que não existe «nenhum obstáculo fundamental» à ordenação de mulheres como sacerdotes *.

Não sendo teólogo, não discuto teologia. Destaco, contudo, o incómodo que o cardeal português provocou ao Secretário de Estado de Sua Santidade o Papa, Tarcisio Bertone * .  O mesmo Bertone que, há um ano * , para defender o celibato dos sacerdotes, esclareceu que «Muitos psicólogos e psiquiatras já mostraram que não existe vínculo entre o celibato e a pedofilia, mas, segundo me foi dito recentemente, muitos outros já demonstraram que existe uma relação entre homossexualidade e pedofilia.»

Desconhecemos quais os argumentos teológicos que o primeiro-ministro da Santa Sé terá agora usado para convencer D. José Policarpo. Talvez que a capacidade das mulheres para difundir ideias ridículas seja «menor, em termos percentuais.» *