segunda-feira, 18 de julho de 2011

Dúvidas soberanas

Em setembro de 2001, o mundo pensante constatou, com inopinada surpresa, que toda a arquitetura da segurança externa assentava num pilar movediço. A premissa de que o vigor da soberania assenta na aptidão bélica foi posta à prova.

Sem compreender o substrato social do terrorismo e as suas formas de combustão (ou, mais grave, compreendendo-os e ignorando-os), um certo quarteto atlântico decidiu ordenar que esquadrilhas de Apaches AH64 traçassem as suas rotas para o Médio Oriente.

Preventiva e paradoxalmente, os alvos foram outros Estados soberanos. O frágil argumento legitimador das armas de destruição massiva denotou bem o embaraço perante a aparente novidade do fenómeno.

Faltando, ao terrorismo organizado, a soberania aprendida pelos manuais, todo o edifício da defesa estava apostado em ruir. Os Estados projetaram o que melhor sabiam: o pilar da guerra.

Bastas vozes recordaram que o material genético dos Estados era mais rico do que isso. Com os alelos dos serviços secretos, os aliados tornaram-se mais vigilantes. Aprendida a lição, estão hoje mais ativos na sombra do que alguma vez estiveram aos clarões da pólvora.

As consciências do Atlântico Norte encontraram um bálsamo nas revoltas populares do Mediterrâneo Sul. Ainda sem certezas, a primavera árabe faz inflar os peitos norte-americanos e europeus, convictos do dever cumprido e ávidos pelo florescimento de novas relações comerciais.

Em 2011, volvido um decénio, os pergaminhos voltam a ser revisitados. Mesmo após séculos de relações com financiadores privados, as soberanias mostram dificuldades em reconhecer que os arsenais bélicos são inócuos para os mercados.

Despidos do músculo que os caracterizava, os Estados foram investindo as suas administrações na prerrogativa de implorar crédito a quem tivesse a gentileza de o conceder. A necessidade de dispor de verbas para cumprir missões alegadamente sociais conduziu os governos, mais por pragmatismo do que por ideologia, ao regateio.

Convictos de que a sua aparência de soberania seria suficiente para manter o filão, os Estados concederam aos mercados a mais poderosa de todas as armas: a auto-regulação.

Agora, com um ar sonso, prometem frugalidade. Como se os mercados se importassem. Vendem austeridade às populações para comprarem credibilidade. Como se isso fosse crível.

O temor reverencial pelos financiadores privados tomou as soberanias como reféns. Timidamente, finge-se robustez, enristando-se o dedo contra as agências e os opinadores.

Também aqui a genética poderá contribuir. Os Estados devem regressar às origens. E compreender que as dúvidas e as dívidas soberanas só se justificam porque os Estados, lamentavelmente, deixaram de acreditar em si próprios.

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